Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta política

Precisa a nossa Agricultura de mais subsídios?

  São dois assuntos demasiado sensíveis: agricultura e subsídios. Várias pessoas publicaram nas redes a sua indignação e solidariedade para com os agricultores que se manifestaram nos primeiros dias de Fevereiro, cortando a circulação de várias estradas do país. As razões deste protesto são em parte portuguesas: o Governo enganou-se ao inscrever uma área muito pequena (apenas 10 de 460 mil hectares) para reconversão da agricultura convencional em biológica, o que resultou em cortes de 35% nos apoios comunitários a ecorregimes de agricultura biológica e 25% nos de produção integrada. Mas as razões deste protesto são também europeias, com regras ambientais mais apertadas e o fim de subsídios ao gasóleo agrícola ou uma concorrência mais competitiva de produtores sul-americanos. Daí, a mimetização nacional dos métodos e slogans das manifestações em curso noutros países europeus.   As palavras de ordem são dramáticas e o tom chega a ser violento: “sem agricultores não há comida”,...

O nosso momento Goldwater

Olhemos para as eleições presidenciais americanas de dia 3 de Novembro de 1964: o candidato democrata Lyndon B. Johnson (LBJ) derrota o candidato republicano Barry Goldwater com 90,3% no Colégio Eleitoral, teve 61,1% contra 38,5% em votos populares, e ganhou um total de 44 dos 50 Estados. Foi a vitória mais expressiva desde James Monroe em 1820, e os resultados são ainda mais retumbantes se pensarmos como LBJ era visto. Primeiro, sabemos como é difícil substituir uma pessoa popular e LBJ era o vice-presidente que tomou o lugar do amado John F. Kennedy após o seu assassínio em Dallas em 1963; em segundo lugar, LBJ era percebido como sendo um homem demasiado ambicioso, manipulador, rude, inseguro, obcecado em deixar a sua marca na história e ser mais querido que o seu antecessor; por último, à excepção dos 8 anos de Dwight Eisenhower (1952-60), os americanos eram governados por democratas desde 1932. Contra estas probabilidades, LBJ teve uma grande vitória eleitoral e, assim sendo, só no...

Uma História de Espanha - Arturo Pérez-Reverte

Autor: Arturo Pérez-Reverte Livro: Una Historia de España Editora: Alfaguara, ano de 2019, 246 páginas (há uma edição portuguesa da  ASA , de 2020)     Arturo Pérez-Reverte (Cartagena, 1951) é membro da Real Academia Española mas também um dos mais lidos e populares autores espanhóis. Escreveu “Las aventuras del capitán Alatriste”, célebres enredos de capa e espada que se passam no século XVII e deram origem ao filme “Alatriste” (2006) com o fantástico Viggo Mortensen no papel de herói. Antes do sucesso literário, Pérez-Reverte viu e viveu muito como correspondente de guerra durante 21 anos (1973-1994) no Chipre, no Líbano, na Eritreia, no Saara, nas Falkland, em El Salvador, na Nicarágua, no Chade, na Líbia, no Sudão, em Moçambique, em Angola, no Golfo Pérsico, na Croácia e na Bósnia.   Não é o primeiro escritor a quem a guerra deu um olhar privilegiado sobre a condição humana – vêm-nos logo à memória Churchill, Hemingway, Dos Passos ou Orwell – e em P...

A política portuguesa em 2 cartazes

(também publicado aqui , no Observador) Imagine um cartaz Carlos Moedas é o candidato apoiado por PSD, CDS e outros 5 partidos à Câmara Municipal de Lisboa. Irá enfrentar Fernando Medina, que presidiu à CML nos últimos 6 anos e ainda não apresentou candidatura – apenas marcou posição ao dizer que José Sócrates “corrói a nossa vida democrática”. Nas últimas semanas, Moedas apresenta-se aos lisboetas num cartaz que podemos encontrar pela cidade. Aparece sem gravata mas de braços cruzados, deixando cair uma suposta formalidade para involuntariamente erguer outra barreira entre ele e nós. A fotografia não é tão boa que justifique que a sua cabeça saia da moldura do cartaz, mas é aceitável e o azul sempre transmite serenidade. O mais importante é aumentar o reconhecimento do candidato, missão cumprida. A mensagem é que não é ideal. “Lisboa pode ser muito mais do que imaginas” diz-nos várias coisas: - o candidato quer tratar o eleitor por tu; - ele reconhece que Lisboa até está bem mas que t...

Reflexões sobre Serviço Público

Não é segredo para ninguém que vivemos no tempo da comunicação instantânea. Nunca antes na História foi possível disseminar informação – seja escrita, áudio, vídeo, ou uma mistura de todas – em tempo real por quase todo o mundo. Em minha opinião, isso ajuda-nos a viver num meio distorcido, onde o detalhe que é ampliado toma a vez do todo. Damos atenção ao mais ínfimo pormenor de assuntos pouco relevantes, somos especialistas em pequenos nadas que nos moldam a tomada de decisão, descurando o rumo geral da sociedade. Será, em parte, esta a lógica por detrás do vociferar estridente de cada vez mais subdivididas categorias minoritárias. Amplificam as suas questões, pretendendo elevá-las a emergências gerais, comuns a todos. Quando caímos em nós vemos uma sociedade focada em detalhes como se fossem, de facto, as grandes questões do nosso tempo. Isto acontece também com o forçar de questões controversas, normalmente por um limitado número de intelectuais que se têm por iluminados e com bom a...

Artigo de síntese – Tertúlia 07/11/2020

Artigos de síntese - visam expor os assuntos e temas abordados nos debates presenciais, descrevendo os pontos de vista e argumentos expostos e trocados, e conclusões alcançadas.   No passado dia 07/11/2020 decorreu uma Tertúlia Ingovernável por vídeo-conferência, onde o tema central foi a Eleição para presidente dos EUA de 2020.     Na introdução do tema foi feita uma contextualização abrangente, não só da eleição presidencial mas também de todas as outras eleições e referendos a decorrer em simultâneo, das quais se destacam: - Eleições para Governadores (mandatos 4 anos) em 11 Estados e 2 Territórios (Samoa Americana e Porto Rico). Dos 50 Estados, republicanos têm 27 governadores (+1 do que tinham) contra 23 dos democratas - Eleições para a totalidade da Câmara dos Representantes (mandatos de 2 anos), estando os democratas perto de assegurar a maioria de 218 mas os republicanos com perto de 200 - Eleições para o Senado, 35 dos 100 senadores (mandatos de 6 anos), sendo qu...

Partido Republicano - ser ou não ser?

Eco e Narciso (1903) - John William Waterhouse Eco e Narciso Na mitologia grega, Eco era uma linda ninfa que gostava de caçar e de passear pelos bosques. Eco era também conversadora e fazia questão ter sempre a última palavra. Um dia, a deusa Hera suspeitou que o seu marido Zeus se andava a divertir com as ninfas e foi à sua procura no Monte Olimpo. Pelo caminho, Hera encontrou Eco que a tentou distrair com a sua conversa. Quando percebeu que Eco estava a tentar proteger Zeus com o seu discurso, Hera ficou furiosa e condenou-a ao silêncio, não lhe deixando começar mais nenhuma conversa e permitindo-lhe apenas repetir as últimas palavras que terceiros eventualmente lhe dirigissem. Eco sofria pelo discurso que perdera, mas um dia viu um rapaz chamado Narciso a caçar e imediatamente ficou encantada com a sua beleza. Queria falar-lhe, mas não conseguia. Cansado, Narciso aproximou-se dum lago para beber água e recuperar forças mas, olhando o seu reflexo, gostou tanto de se ver que ficou ali...

Tertúlia 26/09/2020 - Cidadania e Desenvolvimento

Artigos de síntese - visam expor os assuntos e temas abordados nos debates presenciais, descrevendo os pontos de vista e argumentos expostos e trocados, e conclusões alcançadas.   No passado dia 26/09/2020 decorreu uma Tertúlia Ingovernável por vídeo-conferência, onde o tema central foi a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. A Reunião iniciou-se com a abordagem de alguns pontos relativos à organização do projecto e aos seus moldes de funcionamento. De seguida, passou-se para o tema da reunião, a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento (C&D). O tema foi apresentado pelo moderador designado. A apresentação versou sobre a criação e conteúdo programático da disciplina, enquadrando posteriormente o caso que trouxe a discussão para a esfera mediática, tanto do ponto de vista escolar como legal e político. Os trabalhos foram conduzidos pelo moderador, fazendo perguntas muito relevantes a cada um dos presentes sobre o tema.  Foi discutido o Programa de C&D, enquanto qu...

Da cultura do medo ao desleixo à imbecilidade

(texto publicado originalmente a 14/10/2020,  aqui ) O que se passou hoje no nosso País é uma pouca-vergonha . Pois temos um Governo que achou que o ideal era no início tratar-nos a todos como criancinhas, impondo um confinamento extremo através de um estado de emergência. Convenceu-nos que tínhamos de ter medo dos nossos pais, filhos, avós, irmãos, amigos. Que sair à rua era quase tão perigoso como se estivéssemos em Chernobyl (era só para fazer exercício ou compras de bens essenciais, lembram-se?) - a não ser, claro, que fôssemos profissionais de saúde, por escassas semanas glorificados para logo depois voltarem a ser arrastados pela lama. Depois, foi a conversa do "milagre português" (seria até de imaginar que o São Cristiano estivesse envolvido, não fosse o agora recente diagnóstico...) e, com ela, o "tudo é permitido". Mas, pior do que a mensagem que passou para a população geral, foi o desmantelamento da resposta COVID-19 no SNS, obrigando a tarefas impossívei...

Um mundo sem misericórdia

A propósito de Heinrich  Böll e o processo da lei da eutanásia em Espanha por Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra (Nota do tradutor: o processo da lei da eutanásia em Espanha acompanha no tempo e na forma o processo da lei da eutanásia em Portugal. A argumentação de Alejandro Navas é muito pertinente e aplica-se perfeitamente ao nosso caso.) Voltamos a debater a eutanásia, no seguimento da tramitação do correspondente projecto de lei por parte do Governo Espanhol. Os argumentos são conhecidos. Voltou-se a sublinhar que essa práctica contradiz o ethos médico, tal como se formula desde Hipócrates: antes de tudo, não fazer dano. Consequentemente, curar, aliviar e consolar. Há razões de ciência e consciência para nos opormos à pretensão de converter o médico em carniceiro. Se nunca esta praxis se justificou, o recente desenvolvimento da medicina paliativa torna-a ainda mais rejeitável: a suposta “procura social” que invoca o Governo para justificar ...